MEU CAMINHO DE SANTIAGO
Por:
Monica Leiro Baqueiro Milosevic
O sonho de encontrar as origens
Muitos dias caminhando, 800 km a percorrer, fazer o Caminho de Santiago ...era um sonho que eu tentava realizar a mais de seis anos.
Não sei precisar exatamente em que momento eu ouvi falar do Caminho pela primeira vez: em viagem a Espanha, por parentes, pela televisão? Sei que nunca li o livro de Paulo Coelho ou de outros peregrinos, nunca assisti palestras ou conversei com parentes e amigos que já o haviam feito, caminhando ou de bicicleta. Simplesmente a vontade de fazer o Caminho se mantinha viva dentro de mim naturalmente, como se eu já soubesse exatamente o que tinha de fazer.
Em finais de 2009 recebi minha cidadania espanhola. Como neta de galegos imigrantes havia perdido o direito a esta condição. Com a Lei de Memória Histórica, o que já sentia no coração, foi colocado no papel. E qual a melhor forma de comemorar este acontecimento? Fazendo o “Camiño de Santiago”. Caminhar por terras espanholas, conhecer o meu país de forma tão diferente, suas províncias, seus costumes, sua gente e homenagear meus avós, eles sim, gente corajosa que deixou a Galícia para se aventurar por terras brasileiras. As incertezas do Caminho não se comparam com as incertezas que eles viveram. Neles encontrei a minha inspiração maior. E finalmente neste Ano Santo de 2010, senti que era o momento certo.
Sempre mantive a idéia de fazer o Caminho só, caminhar no meu ritmo, com minhas reflexões, superar desafios, testas meus limites e encarar o desconhecido. Quem me conhece sabe que em muitos momentos de minha vida me coloquei a prova, morando no exterior, estudando e trabalhando, me adaptando ao idioma e cultura local. Mas nada se comparava com esta viagem em que meu físico seria exigido de forma tão forte.
O apoio essencial da família e amigos
Converso em casa com marido e filhas. Recebo apoio e muito incentivo. A preocupação maior era o condicionamento físico. Como me preparar tendo todas as obrigações do dia-a-dia tomando quase todo meu tempo? Já vinha caminhando aos domingos em longos percursos, 20 a 30 km. Durante a semana, quando dava tempo, uma volta pela Centenário. Sempre acompanhada do meu companheiro de treinos, nosso cão Champa. Corpo reagia bem, tênis não incomodava, nada de bolhas ou fortes dores musculares. Sabia que não era bastante, mas era o possível naquele momento.
Compro a passagem para 29 de maio. Ida para Pamplona com conexão em Lisboa. Muita correria para comprar o necessário, imprimir as informações imprescindíveis, pegar a credencial do Peregrino com a Associação Bahiana dos Amigos do Caminho de Santiago. Sandra me menciona o bastão (tinha esquecido de comprar !). Pergunta pelo meu plano de viagem. Fica surpresa quando digo que tenho um impresso da internet mais que nada era definitivo, que tinha lido muito pouco e que lá descobriria coisas. Tinha 32 dias para chegar em Santiago... e com toda minha positividade afirmava que com certeza chegaria.
A partida de Salvador e da minha casa
Chega o dia da partida. No momento da despedida minha mãe pergunta: “Filha, como posso te ajudar?” e eu respondo “Rezando, mãe”. Tomo consciência de que na realidade não vou sozinha. Para que eu possa ir, viver meu sonho, muitas pessoas aqui ficam, assumindo as minhas responsabilidades e cobrindo a minha ausência. Meu marido, filhas, irmão, familiares, funcionárias e empregados não mediram esforços para me ajudar a viabilizar meus 36 dias fora de casa. As orações e pensamento positivo das pessoas a quem amamos e que nos ama é um ingrediente imprescindível para qualquer peregrino. A todos eles o meu: muito obrigada!
Nelson Mandela deu uma força em Invictus
No avião assisto ao filme “Invictus”. Nele, Nelson Mandela relembra o poema que lia durante seus 27 longos anos de prisão. Poema este que o manteve são e que me emocionou, me fez chorar e que me encheu de coragem e determinação. O final do poema diz:
“...Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.”
Ao chegar a Pamplona tive a primeira comprovação de que no Caminho tudo pode mudar de um minuto para outro, seja por decisão própria ou por circunstâncias alheias a nossa vontade.Conheci Rodrigo, mineiro, que começaria o Caminho em Saint Jean Pie de Port, na França. Eu tinha decidido começar de Roncesvalles, primeira cidade da Espanha, por receio de logo no primeiro dia subir os Pirenéus.Decidimos ratear o taxi, eu ficaria em Roncesvalles e ele seguiria. Mas neste momento mudei de idéia. Anunciei para ele (e para mim mesma) que começaria de Saint Jean. E assim foi.
Com os pés e o coração no Caminho
No dia seguinte 31/05 às 07h00, de mochila de 08 kg nas costas (juro que tentei levar menos quilos mas não deu !), dou meu primeiro passo, cheia de esperança e fé em Deus e Maria, chamando pelo meu anjo da guarda. Me emociono pois, este foi um sonho sonhado por muito tempo e agora era realidade. Subi os 24 km que separam as duas cidades de uma forma tranqüila e cheguei cansada, mas festejando esta primeira etapa. Nada como um bom banho e um Menu do Peregrino para recuperar as forças. Dentro de alguns dias chegarei a Santiago, mas decidi viver cada etapa como única, pois, o dia de amanhã a Deus pertence...seguiria as flechas amarelas, conchas e as mais diversas marcações do Caminho como uma bússola ou GPS, elas nunca falham.
Durante os 32 dias de caminhada, dormi em cidades diferentes, em albergues, tipos de cama, colchões e travesseiros diferentes – e todos em boas condições. Cada dia com uma quantidade de km para chegar ao destino planejado: 20, 22, 27, 32. Os mais diversos tipos de paisagens: montanhas, montes, plantações, estradas, cidades rurais, grandes centros urbanos. Muita informação em tão pouco tempo. Fechava os olhos muitas vezes, buscando registrar sons e cheiros, tocava no trigal ao longo das sendas para que neles ficasse registrada a minha passagem. Calor, frio, chuva, tempestade, tudo suportado com resignação, pois, nada nem ninguém me obrigavam a estar ali. Da mesma maneira encarava os problemas físicos que acometem a todos os peregrinos, uns mais outros menos: dores musculares são inevitáveis, mas o creme Radio Salil dá um jeito delas desaparecerem (indicado por um peregrino experiente no seu 5º Caminho); dores nos pobres dedos e unhas são amenizadas envolvendo-os com esparadrapo micropore e não apertando o cadarço do calçado pela parte da frente (outra dica do peregrino); bolhas podem ser evitadas colocando vaselina em todo pé e rezando ...
Um sorriso, uma palavra de incentivo, uma sopa de lentilhas pronta na chegada... aos hospitaleiros, geralmente já peregrinos, gente do mundo inteiro, doadores do seu tempo e esforço que nos recebem nos albergues e são responsáveis pela limpeza, ordem e controle, a minha gratidão. Registro especial para Maria Helena que com seu abraço soteropolitano me recebeu em Nájera. Ficou na minha memória nossa filosofia sobre conversar com os nossos tão sofridos pés, pedindo colaboração neste projeto comum, corpo e mente, trabalhando juntos. Já me dizia um peregrino que a caminhada está na cabeça, na força mental. E ele tinha “somente” 76 anos. Quem sou eu para contestar...
Impossível esquecê-los pelo Caminho
Ah, os peregrinos são capítulo à parte no Caminho. No início são estranhos cuja única ligação é terem o mesmo objetivo e desejarem “Buen Camino” nos encontros da caminhada. Aos poucos muitos se tornam companheiros do Caminho, percorrendo algumas etapas juntos e compartilhando conversas e refeições. No meu caso tive muito mais que companheiros e tenho certeza de ter criado fortes laços de amizade com pessoas que se tornaram inesquecíveis em minha vida. Se nos reencontraremos um dia, por quanto tempo manteremos o contato? como saber? Mas nada disso altera o sentimento que nos uniu por uns tantos dias, sentimentos tão intensos que só quem faz o Caminho pode mensurar. Faço questão de mencionar e agradecer a cada um deles por todo apoio, carinho e grandes lições de vida: Sr. Manoel (meu asturiano querido de 76 anos), Manolo (amigo de todos com suas dicas infalíveis, 5º Caminho, 68 anos) Martin, Roberto, Fernando, Alberto, Pablo, o casal Valentin e Ana (todos espanhóis, entre 34 e 62 anos, todos gente boa, alto astral, conversas profundas e muitas risadas) Marie e Monique (francesas percorreram 1540 km, 34 e 60 anos, admiráveis na força e determinação). Muitos outros peregrinos ficarão na minha memória: Rodrigo, Ivo, Wagner, Carlos, Júnior, Gabriela, Beth (brasileiros), Antonio e Milagros, Mari e Manolo, Camino, Carla, Jayme, Melo (espanhóis), Derville e seu filho (irlandeses), Ester (americana/koreana), Isabelle (canadense de Québec), Lorenzo (texano), Acuba (japonês) e outros tantos. É só fechar os olhos que posso ver todos na minha frente. Impossível esquecê-los.
Somos parte inseparável deste Caminho
Impossível esquecer o Caminho, os dias de tão intensa felicidade, a chegada a Santiago, o abraço no Apóstolo agradecendo a presença dele em cada passo dado. O Caminho é difícil sim, mas vale cada esforço, cada dor, cada momento de incerteza para ter em troca esta sensação de plenitude e de realização. Viver o que só o Caminho de Santiago pode oferecer. Para aqueles que duvidam de poder fazê-lo: como saber sem tentar? Para aqueles que não conseguiram terminar, um exercício de aceitação dos limites que não são permanentes e sim momentâneos. O Caminho estará sempre lá te esperando. Para aqueles que chegaram, estão chegando hoje ou estão no Caminho neste exato momento, elevo o meu pensamento, certa de que uma forte energia nos une e nos conecta através deste Caminho Milenar da qual agora somos parte inseparável.
Pelos caminhos que fazemos na vida e com as bênçãos de Santiago
Monica Leiro Baqueiro Milosevic |